| SINDICALISMO (ferroviário)
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NOTA
de introdução : Ao Autor da
obra abaixo citada, devemos o nosso muito obrigado pelo
"retrato" de uma época e de uma classe
profissional, que tanto importância teve na conquista da
liberdade .
Aqui, em nome dos ferroviários de
hoje, fica o agradecimento aos de ontem, aos
que lutaram e sofreram pela liberdade e pela
democracia.
É um
Barreiro de vinhedos e olivais, pequenas fazendas e
grandes quintas, de terras arenosas e pobres, extensas
praias fluviais de areia dourada e um rio generoso que os
primeiros construtores do Caminho de Ferro vêm encontrar
em 1854/55.
Pequena vila de belas vinhas, pomares e terras de
pão, segundo um cronista coevo, de pouco mais de
quatro mil habitantes (4543, no recenseamento de 1864),
virada a norte para o rio Tejo de águas calmas e de
profundos esteiros navegáveis, onde subsiste uma
importante comunidade piscatória. Nela tinham sido
instalados, no início do século XIX, importantes
moinhos de vento, sustentando, juntamente com os pré-
-existentes moinhos de maré, uma significativa
actividade moageira que, com a extracção de sal das
salinas, constituem a proto-industrialização na margem
esquerda.
O Barreiro é, nesse tempo, local de passagem entre o Sul
e o Norte, por isso não espanta a escolha feita pela
monarquia para a implantação do início terminal
da Linha do Sul e Sueste, de ligação ao Alentejo, e
mais tarde ao Algarve. Por aqui se vão escoar, vindos
das regiões vizinhas, ou do Alentejo profundo: vinhos,
madeiras, trigo, gado, peixe, sal, mel e cera, carvão,
cortiça, etc., para a grande metrópole, do outro lado
do Tejo, Mas é a instalação, em 1861, das Oficinas dos
Caminhos de Ferro, e de uma comunidade ferroviária
imigrante, que inicia verdadeiramente a história
industrial e operária do Barreiro moderno. Operários
qualificados, técnicos experientes, trazem conhecimentos
profissionais e hábitos associativos e culturais,
fixam-se na urbe, que vai ganhando nova dimensão humana
e social, consequente do novo tipo de relações de
produção emergente, com os obreiros vivendo
exclusivamente do seu salário.
Os autóctones, pescadores, salineiros, assalariados
agrícolas (nas grandes quintas) e pequenos agricultores,
sofrem a miscigenação, assimilando as novidades e
transformando-se também em operários industriais,
quando decrescem as actividades tradicionais. Novos
impactos serão trazidos pela indústria corticeira a
partir de 1865. Por tudo isto, a comunidade barreirense
sofrerá acentuadas transformações na segunda metade do
século XIX, à medida que aumenta o número de
residentes (serão 5436, em 1890 e 7844, em 1900)
progridem o espírito associativo (fundação de
colectividades a mais antiga a Sociedade Filarmónica, em
1840), se acentua o espírito sindical e de classe
(criação da Associação dos Corticeiros, em 1890) e o
espírito mutualista (Caixa de Socorros Mútuos em 1883).
O primeiro troço da linha do Sul, ligando o Barreiro a
Vendas Novas, na extensão de 56 Km, foi inaugurado pelo
rei D. Pedro V, em 1859, no meio de grandes
manifestações de regozijo, embora a abertura ao
tráfego só se realizasse em 1861. Era certamente o
maior evento jamais vivido na vila desde o tempo em que
reis e fidalgos demandavam a margem esquerda para
veranear ou fugir a cercos e epidemias. Alguns autores
locais assinalam a transcendência do acontecimento e das
excepcionais perspectivas abertas ao progresso da
comunidade, como fez José Augusto Pimenta (JAP), na sua
monografia de 1886, afirmando entusiasmado: A
abertura do caminho-de-ferro foi para esta povoação, o
braço vigoroso do atleta que veio rasgar o véu de
tristeza e miséria que a envolvia.
Nesse ano, segundo JAP, estavam recenseados no Barreiro,
os seguintes estabelecimentos industriais:
- 3 Fábricas a vapor (uma de massas e duas de moagem)
- 4 fábricas de cortiça
- 2 cordoaria
- 2 Estaleiros de construção naval
- 3 fomos de cal
Para além das excepcionais Oficinas dos
Caminhos de Ferro, envolvendo 500 postos de trabalho.
A filosofia fontista de expansão ferroviária para
recuperar o atraso em relação à Europa,
consubstancia-se no alargamento da linha do Sul e Sueste,
que em 1861 chega a Setúbal, com a abertura do troço de
13 km a partir do Pinhal Novo, em 1863 chega a Évora e
à fronteira espanhola, e em 1864 chega Beja. A
partir 1869 o Estado tem de assumir
conclusão da rede do Sul e Sueste, por desinteresse das
entidades privadas nacionais e estrangeiras.
Mas o trânsito de mercadorias e de pessoas do comboio
para o vapor que passa o Tejo faz-se penosamente num
transbordo de quase dois quilómetros. Manifesta-se
então o espírito empreendedor do engenheiro Miguel
Paes, de formação militar e ao serviço da Companhia
Real, responsável pelo projecto e concretização das
obras de construção da Gare Marítima, em terrenos
conquistados ao rio, inaugurada em 1884. Estavam
finalmente criadas as condições para a vila ribeirinha
ser a grande plataforma giratória dos produtos e pessoas
oriundos do Alentejo, e, mais tarde, do Algarve, com a
expansão até Faro da Linha do Sul, em 1889, e tornar-se
na próspera urbe por que ambicionavam os profetas
barreirenses.
O progresso material e a elevação do nível de vida das
classes trabalhadoras são um factor de avanço de todos
os restantes sectores da vida económica e social da
comunidade. Tal como constituem a base fundamental para o
aparecimento de formas de organização colectiva
preocupadas com o recreio e a cultura (formação de
colectividades no concelho: 5. Filarmónica Barreirense,
em 1840 SFAL Lavradiense, em 1867 Penicheiros e
Franceses, em 1870), ou outras formas mais
avançadas, interessadas na defesa das condições de
trabalho e dos direitos dos trabalhadores (criação das
Associações de Classe, precedendo os futuros
Sindicatos). A primeira a ser constituída é, como
referimos, a Associação de Classe dos Corticeiros, em
1890, seguida da Associação de Classe Metalúrgica e
Artes Anexas, em 1903, formada essencialmente por
operários ferroviários.
No que mais particularmente a estes concerne, são
assinaláveis a constituição, em 1894, da Associação
Humanitária dos Bombeiros Voluntários do Sul e Sueste,
e, em 1896, a criação do Armazém de Consumo, no
âmbito da Caixa de Socorros Mútuos Caminho Ferro,
também a primeira do género a ser criada.
No rodar do século, é assinalável o prolongamento da
rede até Vila Real de St°. António, em 1906. Mas os
factos mais relevantes têm a ver com a organização da
classe ferroviária, enquadrada na Associação dos
Metalúrgicos, já referida, avançando para formas de
luta só possíveis pela elevação da consciência
política. Em 1910, antes da implantação da República,
os homens das ferrovias do Sul fazem greve de
solidariedade com os operários corticeiros em luta
contra a exportação da cortiça sem ser trabalhada.
Curiosa esta greve dos corticeiros, com o apoio dos
descarregadores de mar e terra, e com o beneplácito de
alguns patrões, todos de acordo em que a exportação de
cortiça em bruto privava os portugueses das mais-valias
da sua transformação. Os corticeiros lutavam também.
Por melhores retribuições, num sector de grande.
Precariedade e baixas remunerações. É certamente por
isso a classe mais aguerrida no dealbar do século XX, e,
porventura, a melhor organizada.
O fim do antigo regime e a implantação da República em
5 de Outubro de 1910, assinalada entusiasticamente pelos
ferroviários com uma paralisação total, e pelos
barreirenses, em particular, com o hasteamento da
bandeira na Câmara Municipal logo a 4, trouxe uma nova e
extraordinária dinâmica ao movimento operário no
Barreiro, fortalecido entretanto em números absolutos,
como mostra o aumento, em percentagem, da população
activa na Indústria Transformadora (29%, em 1890, 30% em
1900 e 44%,em 1911).
- DA
1ª. REPÚBLICA AO GOLPE MILITAR DE 1926
A
primeira grande luta dos ferroviários do Sul foi travada
em 1911, durante 6 dias, de 11 a 16 de Janeiro, integrada
numa greve nacional conseguiu imobilizar quase todos os
comboios do País, tendo obtido aumentos salariais, 20
dias de licença anual com vencimento, passes gratuitos,
etc.
Corresponde a uma forma superior de organização,
resultado do grande impulso no associativismo
pós-república, imprescindível para se conseguir a
unidade e a coragem necessárias para exigir do poder
republicano recém-constituído, que, apesar de
contradições internas, se mostraria sempre avesso às
reivindicações operárias. Nessa altura também
conseguiram a demissão do presidente dos
Caminhos-de-Ferro do Estado (CFE), Eng.º Fernando de
Sousa, um monárquico acusado de reaccionarismo e
autoritarismo.
Para responder às novas exigências, a Associação dos
Metalúrgicos foi extinta em 1914, para dar lugar à
Associação de Classe dos Ferroviários do Sul e
Sueste,- transformada depois em Sindicato em 1921
(Sindicato do Pessoal dos Caminhos de Ferro do Sul e
Sueste).
Referência para o facto de ainda, em 1910, ter sido
criada a Associação de Classe dos Descarregadores do
Barreiro, com cerca de 200 associados, uma camada
proletária também muito unida e aguerrida, intimamente
ligada aos ferroviários, pois os mesteres
completavam-se. Participaram sempre nas lutas mais
importantes.
Não restam dúvidas os anos de ouro da luta dos
ferroviários do Barreiro (muitas vezes englobada num
âmbito nacional) correspondem acentuação da corrente
sindicalista revolucionária (ou anarco-sindicalista) na
Associação de Classe e depois no sindicato. A partir de
1917, foi sobretudo dirigida por Miguel Correia e
António José Piloto, que promoverão em 1919 a edição
do Sul e Sueste, órgão de informação e
mobilização da classe.
Assim organizados, os homens dos Caminhos-de-ferro do
Estado, participam numa grandiosa greve, em Novembro de
1918 contra a carestia da vida e por melhores salários.
Luta dura e prolongada, com sabotagens, repressão feroz,
prisões despedimentos, espancamentos, enfurecendo os
trabalhadores e desacreditando cada vez mais os partidos
do poder republicano. Esta viragem gradual contra a
política democrática, iniciara-se nos
graves incidentes de 1914 durante uma greve tumultuosa na
CP, ferozmente reprimida em Lisboa. Lembrar que, em 1910
os homens da ferrovia tinham uma das profissões mais
republicanizadas.
No ano seguinte, em 1919, haverá nova greve pela
readmissão dos camaradas despedidos cm Novembro de 18
durou 12 dias e acabou vitoriosa! Nem sempre, contudo,
assim aconteceu. Em 1922 os homens dos caminhos de ferro,
organizados nos três pólos sindicais de Lisboa, Porto e
Barreiro (União Ferroviária do Porto, SPCFP de Lisboa e
Sindicato do Sul e Sueste, no Barreiro), encetaram
corajosamente uma greve nacional pela desmilitarização
da empresa, sujeita a requisíçao militar quando se
travava alguma luta, nomeadamente com os soldados do
Batalhão do Sapadores dos Caminhos dos Ferro, comandados
pelo famigerado tenente-coronel Raul Esteves, a
substituírem os maquinistas na condução das
locomotivas . Aquele oficial,tido por monárquico e
futuro golpista do 28 de Maio de 1926, já em 1919 andara
um mês nas linhas da CP com a sua unidade e o célebre
vagão fantasma ( vagão que seguia à frente
do comboio com grevistas escoltados para garantir não
haver sabotagens ).
Apesar de durar 70 dias (!) a greve não teve êxito,
foram despedidos como represália os elementos mais
rebeldes e presos os líderes sindicais,
incluindo o telegrafista Miguel Correia, dirigente da CGT
anarquista e o maior agitador ferroviário que
houve em Portugal, segundo alguns historiadores.
Dando uma imagem nítida do descrédito do poder
republicano junto dos ferroviários (e não só) o
Sul e Sueste 1921, dizia: Em dez
meses, em pleno regime republicano, tem havido mais
opressão e tirania do que em dezenas de anos de
monarquia. Passe o exagero da afirmação, porque
no antigo regime não havia a dinâmica de luta do tempo
em questão, talvez assim se compreenda a razão pela
qual os ferroviários fizeram greve local de apoio ao
golpe de Estado de 28 de Maio de 1920.
Retomemos o ano de 1921, e assinalemos outro facto
notável, informado pelo Sul e Sueste, sobre
a prisão de dois sindicalistas (Leopoldo Calapez e
Manuel D. Júnior) por possuírem exemplares do
Bandeira Vermelha, órgão da Federação
Maximalista Portuguesa, de que era director o
ferroviário e escritor Manuel Ribeiro, e uma das raízes
da fundação do Partido Comunista Português, nesse
mesmo ano. Como noutros sectores, as novas ideias da
Revolução Soviética de 1917 também aqui iam
chegando.
Em 1922 os trabalhadores do CFE estão em festa com a
inauguração da Casa dos Ferroviários, local de
instrução e convívio onde se juntam as famílias para
assistirem a concertos, palestras, evocações. Passa a
ser também a sede do Sindicato criado no ano transacto,
chegando aos nossos dias infelizmente muito degradada.
A última greve do Sul e Sueste antes do golpe militar,
teve lugar em 1923, durando três dias e novamente com
violências e acções de sabotagem como resposta da
parte dos trabalhadores.
- DO
GOLPE MILITAR À GREVE GERAL
REVOLUCIONÁRIA
Quando
surge o 28 de Maio de 1926, o líder dos ferroviários do
Barreiro, Miguel Correia, que já estivera quatro vezes
preso nas cadeias da República, negociou um compromisso
com os revoltosos, prometendo-lhes a paralisação do
tráfego normal e todas as facilidades para o transporte
de tropas. Esta colaboração era prestada mediante uma
lista de reclamações apresentada aos chefes de Lisboa (
comandantes Mendes Cabeçadas e Gama Ochoa).
Terão os sindicalistas libertários pensado que a
situação política era tão má que para pior já não
era possível mudar? Note-se, a CGT (tal como o PCP)
rapidamente se tinha declarado em oposição ao golpe.
Esperanças vãs, desilusão amarga, terão sido os
sentimentos dos trabalhadores das ferrovias em relação
à ditadura militar, quando o Sul e Sueste
ficou sujeito a censura prévia (como todos os jornais
sindicais) e Miguel Correia foi novamente preso em
Setembro de 1926 e deportado para Cabo Verde (e mais
tarde para Lourenço Marques).
Em Maio de 1927, foi assinado o arrendamento das linhas
do Sul e Sueste (CFE) à Companhia de Caminhos de Ferro
Portugueses (CP), correspondendo na prática à sua
privatização, arrostando graves consequências na
diminuição dos postos de trabalho e de outras regalias.
Negócio da China, foi como lhe chamaram os
jornais sindicais. Concorreram também outros grupos
económicos, como Alfredo da Silva, Banco Bumay, etc.,
interessados naturalmente num inverosímil contrato que
deixava os encargos para o Estado (défices, reformas do
pessoal, obras em pontes, material circulante, etc.,)
Os homens dos caminhos de ferro do Sul lutam então
bravamente contra as reformas compulsivas, as
dispensas e os despedimentos, fazendo greve,
ferozmente reprimida. Muitos dos seus dirigentes
sindicais são presos, juntando-se a Miguel Correia.
A privatização das linhas do Estado,
assumiu a feição duma vingança política,,
acrescida dos castigos aplicados a propósito do
movimento insurreccional de Fevereiro de 1927. Este golpe
começou no Porto a 3 de Fevereiro e terminaria sufocado
em Lisboa a 9 do mesmo mês, sendo a primeira grande
tentativa contra a ditadura e terá tido como motivação
próxima o chamado arrendamento das linhas do
Estado, já então em adiantado estado de
preparação. Teve alguma expressão no Barreiro,
sobretudo nos meios republicanos, cujo objectivo era
ganhar para a causa o Quartel dos Fuzileiros. Uma
concentração de apoiantes na praia do Mexilhoeiro, foi
bombardeada a partir de um vaso de guerra no Tejo, na
madrugada do dia 7 de Fevereiro, como já foi contado
anteriormente.
Os ferroviários do Sul e Sueste iniciaram neste contexto
uma greve no dia 4, todavia sem grande participação e
aqueles que entraram no movimento foram
exemplarmente castigados: O Sindicato foi
encerrado (reabriria meses depois), e o que restava
da Federação Ferroviária, a nível nacional (de
tendência anarco-sindicalista), passou à
clandestinidade, tendo os seus lideres, Manuel Rijo e
Mário Castelhano sido presos e mais tarde deportados
para o Tarrafal, onde o segundo viria a falecer, vítima
das condições de detenção.
No principio dos anos 30 o sindicalismo ferroviário
começou a ser dominado pelos comunistas que, pouco a
pouco, tinham destronado os libertários. Em 1931,
decorrente da repressão das revoltas contra a ditadura,
na primavera desse ano, foram encerradas as principais
delegações do Sindicato do Sul e Sueste (Beja, Évora,
Funcheira, Messines e Faro), sendo preso o líder do
Sindicato de Lisboa, o comunista Manuel Vieira Tomé. O
jornal o Ferroviário, que dirigia, sujeito a
férrea censura, não pôde dar a notícia da sua
prisão! Seria morto pela PVDE no Aljube em
circunstâncias nunca esclarecidas.
No início de 1933 , os comunistas conseguem conquistar a
direcção do Sindicato do Sul e Sueste, mas o último e
rude golpe na organização e no generoso espírito de
luta da classe ferroviária manifestado durante décadas
na defesa de direitos e melhores condições de vida,
seria dado pouco depois com a publicação da
Constituição de 1933, que proibia a greve, e com a
promulgação do famigerado Estatuto do Trabalho
Nacional. O governo de Salazar, chegado á Presidência
do Conselho em Julho de 1932, ilegalizou o Sindicato dos
Ferroviários e proibiu o seu órgão, o Sul e
Sueste, ainda antes de, em 1 de Janeiro de 1934,
publicar o decreto proibindo e dissolvendo os sindicatos
livres.
Mas os trabalhadores das ferrovias, como os restantes
trabalhadores portugueses, não se entregaram nos braços
de Salazar. Foram à luta, o que para a corrente
anarco-sindicalista em perda de influência, representou
um desespero de causa. No Barreiro, foi possível, nos
princípios de Janeiro de 1934 discutir e acertar acção
entre a facção tradicionalmente maioritária nos
ferroviários e a tendência comunista, que desde os
finais da década de 20 vinha ganhando força.
No dia 18 de Janeiro de 1934, um numeroso grupo de
antifascistas, em boa parte trabalhadores ferroviários,
aguardou ao princípio da madrugada, no eucaliptal frente
à Estação do Lavradio, a indicação para pôr em
marcha uma grande acção insurreccional, incluindo o
assalto ao posto da GNR. A movimentação local,
integrada na Greve Geral Revolucionária organizada a
nível nacional, acabou por ser desmobilizada por falta
de confirmação e depois de acalorada discussão e
votação dos presentes. Excepto na Marinha Grande, onde
a vila foi ocupada pelos trabalhadores em luta, a acção
foi abortada, constituindo um grande revés para o
movimento operário português. Pesada derrota,
particularmente para a corrente sindicalista-anarquista,
cujos dirigentes foram ferozmente perseguidos, presos e
deportados, nunca mais conseguindo organizar-se nas
condições repressivas da ditadura salazarista. Destes
factos naturalmente se ressentirão os ferroviários do
Barreiro durante muitos e muitos anos.
Logo
após a publicação do Decreto-Lei 23050, começaram a
organizar-se os sindicatos corporativos. Em Junho de 1934
será constituída a comissão organizadora e em Novembro
de 1935, é formalmente inaugurado o
novo Sindicato Nacional dos Ferroviários do
Sul. O Estado Novo construía assim o seu edificio
corporativo/opressivo, um dos pilares do regime fascista
em ascensão, sem a participação dos trabalhadores e
entregue a situacionistas e lacaios.
A nível local o processo foi dirigido por Mateus
Gregório da Cruz, o famigerado Marquês da
Bacalhoa, antigo sidonista que, em 1930, fora um
dos fundadores da comissão concelhia da União Nacional
e em 1932 é seu presidente (também da Junta da
Freguesia do Barreiro).
Os corporativistas, recebendo as
incumbências directamente do subsecretário
de Estado das Corporações e Previdência Social, Pedro
Teotónio Pereira, conseguem apropriar-se da Casa
dos Ferroviários, a única sede de
luxo que o associativismo ferroviário livre
tinha conseguido construir (ainda com dívidas por pagar)
e que mercê de um estratagema jurídico conseguira
escapar até ai ao esbulho governamental.
O Barreiro continuava a crescer desde o início do
século XX, como mostram os censos (12203 residentes em
1911; 15009 em 1920; 21042 em 1930; 26104 em 1940; 29719
em 1950). Tal como aumentava a população activa na
indústria, mormente por influência da criação e
expansão da Companhia União Fabril a partir de 1908
(44% em 1911, 57% em 1950).
O crescimento da Indústria Química e a concentração
operária consequente, simultaneamente com a penetração
das ideias da Revolução Proletária e a crescente
influência e organização do PCP, ao mesmo tempo que se
refina o aparelho Repressivo do regime salazarista,
formam um triângulo particularmente explosivo pontuando
a vida política do concelho a partir da década de 30.
No dia 27 de Fevereiro de 1935, após sabotagem da
energia eléctrica, deixando parte da vila às escuras,
uma bandeira vermelha foi colocada na chaminé alta, de
40 metros, das Oficinas dos Caminhos de Ferro, por lá
ficando uns dias volteando ao vento, símbolo da
esperança que animava a nova geração. No dia seguinte
foram efectuadas dezenas de prisões, com
interrogatórios e espancamentos no posto da polícia.
Familiares e companheiros revoltados concentram-se então
em frente ao Olho de Boi, na Praça da
República, exigindo a sua libertação e sendo dispersos
a tiro, com dois feridos graves.
Em Maio de1936 a Policia de Vigilância Defesa Estado
(PVDE), assalta as Oficinas para efectuar prisões. Os
trabalhadores ferroviários paralisam o trabalho e
perseguem os agentes até ao cais fluvial, apedrejando o
Évora onde estes embarcam precipitadamente
com a única prisão concretizada, respondendo a tiro às
pedradas enfurecidas arremessadas da margem e fazendo
cinco feridos. Nessa tarde os operários das oficinas e
vias não voltaram a pegar no trabalho!
Nas condições da ditadura, a hierarquização rígida,
o controlo opressivo e uma repressão constante,
sobretudo nas Oficinas, sufocam os trabalhadores,
espartilhados num sistema interno de vigilâncias e
denúncias, patrocinado ao longo dos anos por sucessivos
chefes todo-poderosos, autênticos títeres do regime
(Rui Ulrich, Fernando de Sousa, Raul Esteves, Mendia,
Bruschi, Garcia, Adragão, etc.).
Nos anos da guerra de Espanha, as forças da situação
estiveram particularmente activas entre os ferroviários,
recrutando para as lanças da Legião.
Portuguesa, denunciando e perseguindo os
subversivos, que incluíam os republicanos do
reviralho, deificando o ferroviário n°1: Salazar
manda os ferroviários obedecem!.
Mas as contradições fundamentais o Estado Novo não
podia ou não queria resolver. Os ferroviários não eram
aumentados desde 1927 (alguns desde 1924!) e a CP ainda
cerceara regalias em termos de licenças anuais (1940) e
retirara os passes aos reformados (1939), provocando
grande descontentamento e a diminuição real do nível
de vida até ao limiar da pobreza. Tal, era motivo de
protestos ordeiros por parte dos sindicatos corporativos,
atacando a direcção da CP e ilibando o regime e o seu
chefe, motivo de confiança e fé inabaláveis.
Em 1942/43, numa altura de grandes protestos contra a
motivada pelo racionamento de géneros alimentares,
finalmente Salazar resolve despachar sobre os salários
mínimos dos homens das ferrovias, livrando muitos,
momentaneamente da miséria .
É um
ambiente de cortar à faca aquele que os manifestantes
vão encontrar na manhã de 27 de Julho de 1943, quando
aos gritos de ... : Pára !Pára ! Pára!,
irrompem nas Oficinas pelo lado da Rotunda, vindos do
Barreiro-A. São centenas de homens e mulheres,
operários da CUF, corticeiros, trabalhadores da
construção civil, domésticas, até alguns
comerciantes, que antes marcharam pelas ruas da vila,
gritando, Temos fome !, Queremos
trabalho e pão !, depois de na Companhia União
Fabril se ter iniciado a Paralisação de Braços
Caídos. Alguns profissionais choram em frente das
máquinas-ferramenta, com os contra-mestres a
gritarem-lhes aos ouvidos : Se páras vais
prá rua! Ordens do Director !- até que
alguém corta a energia. Nessa manhã ninguém volta a
arrancar, mas na parte da tarde toda a Oficina volta a
funcionar, os homens do caminho de ferro não vieram para
a rua, onde as forças repressivas, nomeadamente uma
recém-chegada Companhia de Cavalaria da GNR, perseguem,
espancam prendem centenas de Barreirenses em
manifestação.
- O Torrão fugiu de madrugada! A Ramona anda
a caçar de porta em porta!
Valente apareceu espavorido, contrariando as regras de
segurança, naquele seu jeito radical de interpretar as
situações:
- Calma, camarada, calma! Já contávamos com a
repressão! Não esperávamos era um movimento tão
espectacular! Tem sido fantástica a adesão da
população, as ruas cheias de gente, as fábricas
paradas!... Pena o Caminho de Ferro...!
É verdade Estive la ontem á tarde, foram cenas
pungentes! As mulheres com os filhos ao colo a gritarem:
Párem! Párem! relatava Teodoro,
entristecido.
- Não temos lá ninguém que seja capaz de dar a volta
à situação?...
Interrogava-se o José Maria, sabendo bem quão
fraca era a organização do Partido nas oficinas da CP,
após anos e anos de repressão e do colapso da
influência anarco-sindicalista.
Na tarde do dia 27 de Julho, na hora em que a sirene
chamava ao regresso disciplinado ao trabalho nas oficinas
e departamentos, uma multidão, sobretudo composta por
mulheres, juntou-se frente à entrada principal. Muitas
vinham com os filhos ganapos agarrados às saias, ou
ainda bebés ao colo, respondendo ao apelo lançado ao
fim da manhã, pelo Comité de Greve:
As oficinas da CP devem parar!
Depois do relativo insucesso da parte da manhã,
quando a invasão do magote de gente vinda do Barreiro-A
tinha conduzido ao corte da energia e à paralisação
forçada, havia uma grande expectativa sobre o
comportamento dos ferroviários.
Uma indescritível tensão acompanhava os pequenos grupos
subindo as escadas, silenciosos, de cabeça baixa,
perante um silêncio aterrador de centenas de
espectadores interessados. Até que um grito de mulher,
desolado, sofrido, quebrou a angústia:
- Não vão trabalhar, camaradas! Pelo amor dos
nossos filhos, não trabalhem camaradas!
Outras vozes roucas, gestos de violência contida,
crianças levantadas na cara dos relapsos, um desespero
quase religioso das corticeiras que tinham paralisado
mesmo ali ao lado, a fábrica Herold.
- Não traiam a nossa luta, camaradas!
- OS
ANOS DO PÓS-GUERRA E A DÉCADA DE 50
Certamente
foi lento e doloroso o processo de transformação da
orientação anarco-sindicalista, profundamente arreigada
nos ferroviários, que concebia a luta económica e
sindical como motor da transformação política.
Nas condições de Sindicatos Corporativos como meras
extensões administrativas do Ministério das
Corporações, peças importantes da estrutura fascista
que doutrinava a perfeita conciliação de interesses
entre patrões e assalariados, a primeira e legítima
atitude a seguir a 1934 foi o afastamento. Foi essa a
orientação durante muitos anos, até a Única força
política organizada nas duras condições de
clandestinidade, o PCP, partido político
marxista-leninista, chamar a atenção para a
possibilidade de se aproveitar as estruturas sindicais do
Estado Novo para batalhar pelas reivindicações dos
trabalhadores quotizados obrigatoriamente, mas sem
direito a voto, segundo a lei do governo de Salazar.
Os comunistas concebem os sindicatos como organizações
importantes na defesa dos interesses imediatos/mediatos
dos obreiros; mas não os confundem com a luta política
organizada, reservada à vanguarda o Partido
a quem cabe o papel fundamental na luta pela
transformação da sociedade.
Nos anos imediatos à guerra surgiram os primeiros sinais
de crise no seio dos sindicatos ferroviários
corporativos. As pressões infrutíferas para a
publicação de um Acordo Colectivo de Trabalho,
prometido desde 1936 (!), dificuldades na homologação
de direcções, mesmo com gente de confiança, jornais
sindicais a desaparecer, sinais de desânimo e
descrença, dirigentes que ameaçam demitir-se !...
Ficava longe a antiga. Fé e ânimo corporativista dos
anos 30!
Na década de 50, os ferroviários do Sul estão cientes
da justeza da orientação comunistas então Já com
influência decisiva na classe e começam uma nova fase
da sua luta. Assim, em Junho de 1950, organizam uma
numerosa concentração no Sindicato, em apoio à
comissão representativa que foi fazer a entrega de um
caderno reivindicativo.
Em 1952, operários das oficinas entregam no Sindicato
uma carta de protesto com 135 assinaturas, em apoio da
comissão indigitada para defender a melhoria das
condições de trabalho, muito degradadas.
Em Outubro de l953, 75 operários da CP-Barreiro
concentram-se no Sindicato exigindo aumento de salários.
Perante a inércia dos dirigentes, recolhem assinaturas
de apoio a uma exposição enviada ao ministro dos
Transportes e dirigida também a Salazar. Nesse ano
haverá eleições para a Assembleia Nacional, em
Novembro, e o governo fica muito preocupado com a
informação (via PIDE) de que o protesto poderia
redundar numa tentativa de greve!
Nos finais do ano de 1954, pela primeira vez é feita a
unificação da luta nos três grandes centros
ferroviários, Barreiro, Sta. Apolónia e Campanhã, na
elaboração de um caderno de reivindicações, enviado
ao ministro das Corporações.
Em Outubro de 1955, trabalhadores da CP, no Barreiro,
enviam ao Sindicato dos Ferroviários do Sul, um protesto
com mais de 600 assinaturas, contra as condições
estabelecidas no novo Acordo Colectivo de Trabalho (ACT)
finalmente publicado em Julho de 1955 que deixa a maioria
dos ferroviários descontentes.
O governo argumenta com a situação económica difícil
da CP, reestruturada em 1946 com a inclusão de todas as
companhias existentes. São os trabalhadores a suportar a
crise, não vendo as condições de trabalho
actualizadas, o que não era verdade para os
administradores sempre bem pagos e cheios de mordomias.
Desde 1949 os sindicatos estavam agrupados numa estrutura
federativa a União dos Sindicatos Ferroviários surgida
para negociar as Convenções Colectivas, mas a forma
como assinou de cruz o ACT de 1955 e, pior ainda, a
condução da negociação da Revisão do Acordo de 1961,
rapidamente a desacreditou, tal como desacreditados
estavam os sindicalistas corporativos.
No dia de 10 de Janeiro de 1956, a luta endurece. Às
9.00 horas da manhã, fria, cinzenta, no pais da
tristeza, centenas de produtores resolvem animá-la,
paralisando o trabalho e concentrando-se junto à
Direcção das Oficinas do Barreiro, em protesto contra
as condições de trabalho do novo Contrato que o
Ministério das Corporações impôs. Chamadas a GNR e a
PIDE, os trabalhadores ferroviários não se intimidam e
insistem para uma indigitada Comissão Representativa ser
recebida pelos responsáveis, a quem apresentam as
reivindicações. Bem se pode dizer deste acontecimento
que, após anos difíceis, os homens dos Caminhos de
Ferro tinham recuperado a sua organização e capacidade
de luta.
No dia 31 de Maio de 1958, estava prevista a vinda do
candidato às eleições presidenciais, Dr. Arlindo
Vicente, impedido em Setúbal de rumar ao Barreiro.
Efectuou-se uma grande manifestação popular na avenida
da Bélgica e na rua dos Combatentes, nela se
incorporando muitos ferroviários não acatando a
ordem especial para fazerem serão
obrigatório, sob a ameaça de processo disciplinar. Em
consequência destes acontecimentos foram presos no dia
seguinte, Germano Madeira e Manuel Cabanas, funcionários
da CP.
1958 é um ano de grande animação politica em Portugal,
e particularmente nos meios ferroviários, de onde chovem
petições, exposições, memorandos, cartas e
telegramas, dirigidos ao Ministério das Corporações e
à Presidência do Conselho, falando do pesado mal estar,
da descrença, da profunda revolta e indignação de
muitos milhares de membros da família ferroviária,
chamando ao ACT desacordo colectivo de trabalho e dizendo
que
os sindicatos nada fazem por não terem,
de há muito, direcções que exprimam o sentir e a
vontade da classe.
Em Janeiro de 1959, efectua-se uma concentração de
gente do Caminho de Ferro, junto do Sindicato, a
funcionar desde sempre na Casa dos
Ferroviários, na rua Almirante Reis, para entregar
algumas centenas de assinaturas solicitando a
convocação de uma Assembleia Geral, onde se deverá
discutir o aumento dos salários.
No ano de 1961, em Fevereiro, e novamente em Março,
homens das ferrovias concentram-se por aumento de
salários e melhoria das condições de trabalho.
Nesse ano, pela primeira vez, desde há muito, é feito
um investimento significativo na aquisição dos novos
barcos, Algarve e Estremadura,
construídos nos estaleiros de Viana do Castelo, passando
a fazer a travessia para Lisboa em 30 minutos e
substituindo as velhas unidades com mais de 50 anos.
Ainda em 1961 é aprovada a revisão do ACT, que suscita
de imediato descontentamentos, remanescentes da primeira
aprovação em 1955 .
- NOS
ANOS 60 A GUERRA COLONIAL MATA NOS COMBOIOS EM
PORTUGAL
Entretanto
a actividade e a capacidade de organização e luta,
evidenciada durante a década de 50 e no início dos anos
60, despertaran sanha repressiva do regime, e, por duas
vezes no espaço de poucos meses, os cães de
guarda de Salazar, efectuaram dezenas de prisões
de activistas ferroviários, na tentativa de decapitar a
iniciativa.
Em 1963, em dois processos repetem-se os quesitos
acusatórios de, actividades subversivas contra a
segurança do Estado e de, militância no
clandestino Partido Comunista Português, que visa
derrubar o Governo por meios violentos. Dezenas de
condenações no famigerado Tribunal Plenário, com
acusadores e juizes-fantoches, depois de torturas e
sevícias nos interrogatórios da PIDE na António Maria
Cardoso e no reduto Norte de Caxias, arrancando
confirmações muitas vezes para fugir aos tormentos. As
condenações marcam profundamente os presos, mas a luta
prossegue nos locais de trabalho, onde outras sementes
germinam tomando o lugar dos caídos.
A não concessão de subsídios estatais previstos na
negociação do ACT em 1961, conduzem a sempre
deficitária CP a uma situação insustentável, levando
Mário de Figueiredo, notório situacionista, a
demitir-se. A Companhia encerra ramais, em prejuízo das
populações, e não faz investimentos na rede
ferroviária nacional, muitíssimo degradada,
(porque) o material rolante ou é velho ou circula
com avarias, porque se admitem excessos de lotação em
carruagens sem resistência, porque a CP só pensa no
lucro e não na segurança dos passageiros
(Avante ! n° e Agosto de 1964).
Em poucos dias desse ano, sucederam-se três graves
desastres: Custóias (linha da Póvoa) -90 mortos;
Araújo (linha de Guimarães) -1 ferido; Vale de
Santarém 42 feridos. Por essa razão concluía
acutilante referido jornal, ... os 90 mortos
mostram que a Guerra Colonial também mata em Portugal
(...) com o desvio, a partir de 1961, dos principais
recursos nacionais para essa criminosa guerra.
Em Janeiro de 1966, voltava o assunto à baila, com nova
denuncia e mais três desastres graves, com dezenas de
mortes, levando à seguinte exigência expressa: ...
A Direcção da CP para o banco dos réus !.
O estado de desgaste e desprezo em que e
encontra material circulante e as vias
férreas (...) o excesso de lotação (...) pagamento de
salários miseráveis e a redução de pessoal (...) os
subsídios do governo que vão parar aos bolsos dos
directores da Companhia, eram as razões de tal
calamidade.
A luta da gente das ferrovias adquire uma dimensão
nacional quando, no ano de 1966, concertam uma
reclamação conjunta de um novo Acordo Colectivo,
contemplando a actualização de salários. Dando corpo
ao descontentamento, nas Oficinas e nos Centros
Ferroviários do Pais
constituem-se Comissões de Unidade que pressionam os
Sindicatos Corporativos (Norte, Centro e Sul), a
Gerência e os Ministérios da Tutela.
No final do ano de 68, um forte impulso foi dado à luta,
com a entrega ao ministro das Corporações de um
abaixo-assinado, a nível nacional, com cerca de 11 mil
assinaturas, apresentando 33 reivindicações, entre as
quais a fundamental é o aumento mensal de 1000 escudos.
Reforçando o combate à volta das suas exigências, que
incluem, também, horário de trabalho de 8 horas em
todas as estações, apeadeiros e passagens de nivel;
horas extra pagas com 5%; subsídio de férias
equivalente a um mês de vencimento; assistência médica
e medicamentosa em conformidade com as Caixas de
Previdência, etc., os homens e as mulheres dos
Caminhos-de-Ferro, aguardando há mais de três anos um
novo Acordo Colectivo de Trabalho, pressionam os
Sindicatos, os responsáveis locais, a gerência da CP,
os ministérios. Entretanto discutem, a nível nacional,
em clima de unidade, o avanço para formas superiores de
luta, obrigando a gerência e o governo a satisfazer as
suas reivindicações.
Tal intento concretizar-se-á no ano seguinte, 1969, com
uma formidável luta a nível nacional, a célebre
greve de luto: Em Outubro/Novembro, milhares
de funcionários da CP usam uma braçadeira negra como
protesto contra a miséria a que a classe está votada e
contra o desprezo dos responsáveis.
Estes são acontecimentos memoráveis, quando já não
vêm longe os dias magníficos de Abril de 1974, em que a
revolta dos militares e a revolução do povo afastarão
o poder despótico e corrupto desde sempre à frente da
companhia transportadora nacional dos caminhos de ferro.
Texto
extraído dos livros "A Indústria e a Luta em
Desenvolvimento " e "Barreiro, uma História de
Trabalho , Resistência e Luta" (1963-1969) Parte IV
. De Armando Sousa Teixeira.
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